sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A curiosidade prendeu o macaco

  Do alto de uma árvore frondosa, um certo macaco particularmente fofoqueiro olhava para baixo, em um dia de sol quente e umidade elevada. Embaixo do macaquinho havia uma fêmea atraente, de pêlo macio e graciosa em cada movimento. Diferente dos outros macacos, esse era mais levado pela curiosidade do que pela banana. Tal fêmea era acusada pelos outros macacos de louca, e não sem motivos: ela achava que era humana. Pintava-se com ceiva colorida de árovres exóticas, simbolizando aquela tão estranha "maquiagem", que as humanas usavam e que ficavam mais parecidas com uma salada de frutas do que com qualquer outra coisa; pegava folhas de árvores gigantes e muito bem floridas e as cortava como se fossem aquelas "roupas", que os humanos tanto gostavam, e tirava toda a graciosidade de seus pêlos macios e sedosos puxando-os para o alto e os prendendo com pedras amarradas em cipó.
  O macaco fofoqueiro a observava, andando para lá e para cá, falando sozinha em tom musical, sempre alienada a todos os outros de sua espécie. Um dia o macaco fofoqueiro decidiu matar a sua curiosidade e perguntar àquela fêmea o que a fazia ser assim.
  − Com licença, senhorita, posso fazer-lhe uma pergunta? O macaquinho indagou, cauteloso.
  − Ai, cara, até pode, mas vai rápido! Já to atrasada pra um compromisso. − Ela respondeu impaciente.
  − Você tem vergonha da nossa espécie? Por que imita a raça humana? Já não basta eles tirando as nossas casas, nos usando como cobaias e nos chamando de burros? Nós não somos nem híbridos!
  − Cara, olha só, é uma questão de estética. A moda agora é ser diferente, gato, e com isso eu não to te chamando de felino! Os humanos tão queimando, fumando, bebendo e cheirando o nosso lar, vê se tira uma lasca também. Como diz uma cantora humana super doida aí, no final tudo vira bosta. O último que sair apaga a luz.
  O macaquinho curioso voltou à sua casa cheio de dúvidas e incertezas. Será que a macaca maluca estava certa? Ele passou dias observando-a, procurando um vestígio sequer de sanidade, um sinal mesmo que pequeno de certeza, e insatisfeito, decidiu sair da floresta e observar os humanos. O que ele não sabia, era que na selva de pedra macaco fofoqueiro virava atração de zoológico. O macaco foi capturado, preso em uma gaiola e terminou a sua vida seguindo a filosofia de vida da cantora maluca, de que "tudo vira bosta", tacando seus próprios dejetos em humanos, como ele, curiosos. Morreu se arrependendo da curiosidade e da falta de atitude, se perguntando: O que teria feito a macaquinha maluca no meu lugar?

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Os meus erros

  A expressão corre quando mais preciso. Falta de articulação, coesão e coerência me atingem de forma escrota quando penso em materializar sentimentos reflexivos, que tiram o meu mundo idealizado da órbita do meu umbigo e me fazem enxergar a vida não como um todo, mas como todas. Diversas vezes descontruí a visão de paralelo quando cruzei com coisas que até então seguiam uma direção oposta à minha, me provando de forma categórica que o planeta de fato é redondo. Imagino que por isso a esfera esteja tão presente na vida em sua totalidade: para nos impedir de correr do que tememos e nos amedrontar da ideia de ficarmos parados, esperando a colisão.
  A teimosia até hoje me enfiou em diversos becos sem saída, procurando um buraco no final onde a luz passasse, me trazendo por fim a ideia perfeita, a inspiração correta. Procurei o meu sucesso nos outros e idealizei o ser bem-sucedido como um chaveiro, que abria a mente de todos ao mesmo tempo e plantava uma semente, deixando o crescimento à mercê do hospedeiro. Idealizei também o correto diversas vezes, como uma diversidade de fatores que culminavam em uma jóia preciosa, trazendo a ideia da aprovação universal como o sucesso absoluto.
  Esqueci também. Esqueci que o termo "universal" nunca saiu do papel, que a unânimidade não deixa de ser uma utopia que não saiu das páginas dos romances sonhadores e que o sonho nunca se materializou. Esqueci de pensar na individualidade como uma preciosidade e de encarar as diferenças como qualidades de teor único. Me lembrei que um bom vinho tem um sabor em cada língua, um gosto em cada taça e mesmo assim teimei que o vinho perfeito estivesse à minha espera. Engoli o emocional e vomitei o racional, de forma que o equilíbrio morreu na minha cama, e eu nunca o enterrei.

Estática do movimento imperfeito



  E se você acordasse e tudo o que você sempre sonhou houvesse virado realidade? Como um coma expresso. Seria capaz de saborear o gosto de uma vitória sem luta? Um fim sem meio, com um começo imaginário e um desfecho perfeito. Desconstrói-se a fábula antiga de que os fins justificam os meios e vice-versa e aparece uma utopia, onde pensamentos se materializam.
  Ideais se desintegram diante de nossos olhos, e a luta pelo inatingível que nos motiva a viver mesmo sabendo que não importa o que fizermos, não sairemos vivos, perde todo o sentido. Até quando somos capazes de criar objetivos? Até quando os prazeres mundanos nos satisfariam se alcançássemos todos? Um dilema fica no ar: é mais importante o começo, o meio ou o fim? O perfeito nunca pareceu tão imperfeito.
  O café não passaria de água suja se não fôssemos seduzidos pelo cheiro enquanto esperamos, e a aposentadoria não faria sentido se não estivéssemos cansados de trabalhar. Referencial só faz sentido quando há um segundo ponto de vista, e saber não seria tão gostoso sem o processo de aprender. Valeria a pena cortar pela metade a satisfação pessoal em troca do comodismo?