Há dez anos atrás eu sentava e assistia o tempo dançando uma valsa lenta... Eu era um daqueles expectadores ansiosos, que queria saber com antecedência o que aconteceria. Desesperado pra ver o tempo passar, eu aplaudia, na minha sempre impaciente expectativa.
Constantemente invejoso, como qualquer criança que admira o adulto bebendo, fumando e fazendo outras coisas que não são do seu conhecimento, eu odiava aquela valsa. Queria ver um tango, rápido e violento, que me fizesse crescer.
Assistia sempre que podia àquela dança, que ficava mais rápida e os dançarinos menores, como o sabão que vai encolhendo sem você perceber.. Eu crescia e os dançarinos encolhiam, eu beijava e os dançarinos lá, numa perceptível agonia. Seu sonho era acabar aquela dança.
Dez anos depois assisto a uma dança descalça, com os pés sobre brasa. O tempo se desespera a passar e eu me desespero a atrasá-lo. Quero dias com mais horas, horas com mais minutos e minutos com mais segundos. Penso no tolo menino, que botava formigas sob as lentes de um microscópio e se escondia em caixas de papelão. Pobre menino que desejou e conseguiu, ficou preso em papel de foto enquanto o homem o chama, grita. Grito sem resposta.

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